Assim, com a virtude acumulada de tudo o que tenho feito, libertarei os não-libertados, soltarei os que estão presos, aliviarei os que não têm alívio, e levarei todos os seres vivos ao nirvana. Assim, com a virtude acumulada de tudo o que tenho feito, a dor de todos os seres vivos será totalmente eliminada...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Este ano não vou passar o reveillon perto do mar, como tenho feito nos últimos anos, numa especie de ritual, mergulhando nas águas geladas da manhã do primeiro dia do ano, pra lavar o corpo e a alma do que quero deixar pra trás, e receber das águas douradas pelo primeiro sol de 2011 as bencãos de que preciso pros dias futuros. Não vou me sentar na areia e contemplar no infinito das ondas o resto da minha vida inteira menos o ano que se foi, fazer planos, promessas.
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Por isso senti saudades antecipadas, do mar, do ritual em si, e me lembrei da última vez em que estive lá, faz uns quatro meses, e me sentei naquela pedra na ponta sul da praia, no fim da tarde, com o vento terrível que soprava areia nos meus olhos, o rum que deixava minha alma mais leve que aquela própria areia, e o poema de Neruda que levava pendurado na ponta da língua, e que recitei praquelas ondas de agosto.
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Tu perguntas o que uma lagosta tece lá embaixo, com seus pés dourados?
Respondo: o oceano sabe.
- E por quem a medusa espera, em sua veste transparente?
- Está esperando pelo tempo, como tu.
- Quem as algas apertam em seus braços?, perguntas, mais firme que uma hora e um mar certos?
- Eu sei
Perguntas sobre a presa branca do narval, e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto: que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia, incontável, pura; e o tempo, entre uvas cor de sangue, tornou a pedra dura e lisa, encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornucópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão, e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho, como tu, investigando a estrela sem fim.
E em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.
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Lá perto do mar ou aqui tão longe, nas montanhas - mesmo que seja dentro de uma piscina - espero, como a medusa, pelo tempo, e o que ele há de trazer nesse 2011.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Você só precisa ter forças para derrubar 1 dominó nos próximos 30 segundos. Escolha seu próximo dominó agora, e derrube-o.

Porque quando o primeiro dominó é derrubado, ele se encarrega de derrubar o segundo, que se encarrega de derrubar o terceiro, que se encarrega de derrubar o quarto, que se encarrega... de criar os resultados da sua vida. E, dentro de algum tempo, as pessoas olharão para você e sua vida e dirão: quanta sorte ele, ou ela tem, como é brilhante, veja suas realizações, deve haver algo de especial nessa pessoa.

Aqueles que te observam dirão isso de você, ou de seu departamento, ou de sua empresa, ou de sua família, ou de seu casamento (idealmente, de todas essas áreas), mas você sabe que tudo o que fez foi derrubar meia dúzia de dominós certos. Foram os dominós que fizeram o trabalho para você.

Basta escolher um dominó, uma decisão, por dia e as estatísticas começam a trabalhar para você. Escolha seu próximo dominó agora, e derrube-o.

Você decide começar a fumar. Uma decisão. Um dominó. Os dominós começam a derrubar outros e você já tem sua vida reduzida em 10 anos, suas chances de ter uma morte dolorosa disparam, você repelirá potenciais amores, seus dentes amarelarão.... e cada uma dessas ações provocará outras mudanças na vida. Claro que estou me prendendo aos números médios, não aos dominós imprevisíveis que sempre existem. Escolha seu próximo dominó agora, e derrube-o.

Você decide ler um livro sobre um assunto qualquer. Aqueles conhecimentos são vários dominós, que irão influenciar suas posições e decisões por muitos anos, que por sua vez derrubarão outros dominós... tornando você uma pessoa completamente diferente.

Você vai a uma palestra, troca um cartão, e isso pode influenciar a próxima década de vida. Você decide convidar seu filho para uma exposição, e a vida dele pode mudar para sempre. No momento em que você decidiu ler este texto, você derrubou um dominó. Cada edição que você lê, pode derrubar outros dominós, mas seu dominó mais importante foi a primeira decisão. Convidar outra pessoa, para ler este texto, é derrubar um dominó para ela. Escolha seu próximo dominó agora, e derrube-o.

Todas as pequenas decisões que você toma são dominós. Mesmo que imperceptíveis, no momento em que são tomadas, tais decisões ganham força imperiosa com o passar dos anos. Sem mágica, somente com matemática.

Por isso, empresas praticamente iguais em certo momento, se tornam diferentes no curso do tempo. Algumas falindo, outras crescendo. Por isso, pessoas praticamente iguais, quando crianças, se tornam adultos radicalmente diferentes. Por isso a vida das pessoas têm uma biografia tão variada. Escolha seu próximo dominó agora, e derrube-o.

Assistir um programa de televisão é derrubar um dominó. Não assistir, também é. Assinar uma revista é derrubar um dominó. Cancelar uma assinatura também é. Namorar, ou casar, com uma pessoa é derrubar um dominó. Não namorar, ou casar com ela, também é. Escolha seu próximo dominó agora, e derrube-o.

Torrar seu dinheiro em jogo, é um dominó. Resolver não gastá-lo assim, e pagar um curso, também é. Votar em um candidato é um dominó. Não votar nele, ou nela, também é um dominó.

Você não pode decidir o final de sua vida, mas pode decidir o começo. E o começo, não importa sua idade, é hoje, agora... nos próximos 30 segundos. Escolha seu próximo dominó agora, e derrube-o.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
- Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
- Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...