Este ano não vou passar o reveillon perto do mar, como tenho feito nos últimos anos, numa especie de ritual, mergulhando nas águas geladas da manhã do primeiro dia do ano, pra lavar o corpo e a alma do que quero deixar pra trás, e receber das águas douradas pelo primeiro sol de 2011 as bencãos de que preciso pros dias futuros. Não vou me sentar na areia e contemplar no infinito das ondas o resto da minha vida inteira menos o ano que se foi, fazer planos, promessas..
Por isso senti saudades antecipadas, do mar, do ritual em si, e me lembrei da última vez em que estive lá, faz uns quatro meses, e me sentei naquela pedra na ponta sul da praia, no fim da tarde, com o vento terrível que soprava areia nos meus olhos, o rum que deixava minha alma mais leve que aquela própria areia, e o poema de Neruda que levava pendurado na ponta da língua, e que recitei praquelas ondas de agosto.
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Tu perguntas o que uma lagosta tece lá embaixo, com seus pés dourados?
Respondo: o oceano sabe.
- E por quem a medusa espera, em sua veste transparente?
- Está esperando pelo tempo, como tu.
- Quem as algas apertam em seus braços?, perguntas, mais firme que uma hora e um mar certos?
- Eu sei
Perguntas sobre a presa branca do narval, e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto: que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia, incontável, pura; e o tempo, entre uvas cor de sangue, tornou a pedra dura e lisa, encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornucópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão, e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho, como tu, investigando a estrela sem fim.
E em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.
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Lá perto do mar ou aqui tão longe, nas montanhas - mesmo que seja dentro de uma piscina - espero, como a medusa, pelo tempo, e o que ele há de trazer nesse 2011.





