Assim, com a virtude acumulada de tudo o que tenho feito, libertarei os não-libertados, soltarei os que estão presos, aliviarei os que não têm alívio, e levarei todos os seres vivos ao nirvana. Assim, com a virtude acumulada de tudo o que tenho feito, a dor de todos os seres vivos será totalmente eliminada...

terça-feira, 16 de junho de 2009

O repouso do guerreiro
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Hoje
só por um momento
rendo-me
pouso as armas
dispo as roupas
fico nu
Não quero escolher
não quero bater-me
Vou sentar-me
e talvez viver...
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Chego cansado do trabalho, trinta e dois pacientes depois, uma hora e vinte de viagem depois, uma hora e quarenta de trânsito depois, de um dia comum. Chego cansado e tomo um banho, como uma coisa qualquer, a primeira vasilha de comida congelada que encontro na frente. Microondas, prato limpo, boca, barriga. Chego cansado e revejo as contas, o que tenho pra pagar amanhã, o que posso deixar pra depois de amanhã, arrumo a bolsa pra outro dia de trabalho, de cansaço, de tudo o que sempre é igual e o de sempre. E cansa. E drena. E me mata aos poucos, todos os dias me tira: um dia a menos.
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Acendo um incenso: sândalo, o que perfuma o machado que o corta, o hálito dos devas, e me sento pra meditar. Nada de ohmmmm... nada disso. Só mesmo pensar em uma coisa: o dia de hoje, o que eu perdi, o que não pude fazer, o que deveria ter feito, e principalmente, acima de tudo, meditação suprema que leva ao nirvana: como poderia ter feito melhor aquilo que eu fiz. Com um sorriso no rosto, com um aperto de mão, com um bom dia, uma boa tarde, com uma buzinada a menos pro ônibus que me fechou, um "corno!" a menos pro motociclista que quase arrancou meu retrovisor, tão/mais cansado que eu, com tanta/mais vontade que eu de chegar em casa e tirar o tênis apertado, o capacete.
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Uma meditação: o que me fez perder o dia não foi o cansaço, não foram os trabalhos, as pessoas doentes, os quilômetros, as filas intermináveis de carros de cada lado da rua até a porta da minha casa. Foi eu ter levado tudo tão a sério, tudo tão contra mim, tudo sem um sorriso no rosto, uma risada, uma paz que me fizesse zen, que me fizesse o buda do dia de hoje, completamente desperto, no hoje, no agora, com uma risada de engasgar e fazer o dia valer a pena. Para mim. Para todos. Um bodhisattva.
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Mas desperdicei meu dia, me cansando. Para compensar:
esse vídeo.

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